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Jornal O Tempo - Plantão em casa é comum, diz carcereiro
Plantão em casa é comum, diz carcereiro
Expedito Ribeiro, que saiu com chaves da cadeia de Rio Piracicaba, não teve treinamento; 500 servidores estariam nessa situação
FLAVIANE PAIXÃO - ENVIADA ESPECIAL
RIO PIRACICABA - Depois de um incêndio ter matado oito detentos na cadeia pública da cidade de Rio Piracicaba, na região Central do Estado, no primeiro dia do ano, um problema ficou evidente: alguns carcereiros não recebem treinamento específico para exercerem suas funções. "Nunca recebi nenhuma preparação para vir trabalhar aqui", afirmou ontem o carcereiro Expedito Ribeiro, 44, que estava de plantão no dia da tragédia. Em entrevista a O TEMPO, ele assumiu que saiu do seu posto no feriado com as chaves das celas para fazer um lanche nas imediações. Ribeiro ainda explicou que é normal cumprir a jornada noturna de expediente em casa. "Desde quando cheguei lá fui orientado que plantão à noite não se tira na cadeia. Como era mais novato, não podia mudar esse ritmo", disse.
Expedito Ribeiro, que tem o primeiro grau completo, foi contratado pela prefeitura local há 12 anos para trabalhar nas áreas de limpeza, vigilância e obras. Até como coveiro ele já trabalhou. Há três anos ele atua como carcereiro. Ribeiro disse que seu aprendizado para lidar com a realidade do sistema carcerário aconteceu graças à boa vontade de seu colega de trabalho, outro servidor municipal lotado há mais tempo na cadeia.
Ontem, ele disse que durante o incêndio foi foi acionado pelo militar de plantão. O telefone celular de Ribeiro tocou às 20h24, quando ele estava a 500m da cadeia. Até o seu retorno ao imóvel, os detentos já estavam mortos.
Os dois carcereiros que trabalham na cidade se revezam em turnos de 12h e têm autorização para levar consigo as chaves da cadeia ou guardá-las na sala da inspetoria. Mas nem os policias militares que monitoram o espaço tem direto de retirá-las do local.
Ribeiro informou que irá antecipar suas férias. Ele está muito sensibilizado com a tragédia e sofrendo por ter perdido pessoas conhecidas, inclusive o jovem Rodrigo Luciano dos Santos, 18. Ele era filho de seu vizinho.
Em depoimento aos deputados federais que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Prisional, ontem, o servidor dispensou medidas protetivas. Ribeiro garante estar com a consciência tranqüila. "Tentei salvar a vida deles. Não tenho culpa nenhuma." Ele recebe R$ 800, por mês, pelo trabalho.
Atualmente, pelo menos 500 carcereiros em Minas são funcionários de prefeituras. A informação é do deputado Sargento Rodrigues (PDT), presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. A Polícia Civil não confirmou o número e informou que está sendo feito um levantamento para saber a situação dos carcereiros. Conforme o órgão, as delegacias têm autonomia para firmar acordos dependendo das suas possibilidades. A assessoria da polícia informou que será investigada alguma possível irregularidade no caso.
O deputado Sargento Rodrigues (PDT) prometeu tentar novamente instalar uma CPI para investigar a situação carcerária do Estado. Caso isso não seja possível, ele programa promover pelo menos dez audiências públicas nas diversas regiões mineiras para visitar cadeias e saber das condições dos locais.
Tanto a Secretaria de Estado de Defesa Social quanto a Polícia Civil de Minas Gerais só estão se manifestando através de nota enviada à imprensa. Ontem foi informado que os delegados Edson Serafim Camargos e Everson Santos, da Corregedoria da Polícia Civil, coletaram depoimentos dos presos que foram transferidos para João Monlevade. (Com Patricia Giudice)
Veículo: O Tempo


